Quando a praça pública decide quem merece ser apedrejada

A multidão já decidiu seu papel, não importa o qu…
Não é preciso concordar com Michelle Bolsonaro para notar algo inquietante. Em poucas horas, transformaram uma manifestação emocional em prova de caráter, inveja e conspiração. Discussão mudou: não era mais sobre o que foi dito, mas quem ela supostamente é.
A cena lembra Geni, personagem de Chico Buarque. Pouco importa o que ela faça. A multidão decidiu seu papel. Ela existe para receber as pedras. “Joga pedra na Geni.” Ontem necessária, hoje condenada, amanhã pode ser indispensável novamente.
O perigo está em transformar pessoas em símbolos descartáveis. Exaltamos quando servem nossos interesses e apedrejamos quando decepcionam. Nenhuma sociedade amadurece tratando seres humanos assim. Muitas dessas pedras vêm de outras mulheres que defendem liberdade de expressão.
A crítica deixa de ser sobre comportamentos e passa a ser sobre intenções ocultas. Não basta discordar. Precisam afirmar que houve inveja, cálculo ou traição. Desde quando emoções humanas são tratadas exclusivamente como estratégias políticas deliberadas?
Estamos diante de desumanização. A pessoa deixa de ser vista em sua complexidade e é reduzida a um único rótulo. Tudo passa a ser interpretado pela mesma lente deformada. O linchamento moral não exige provas definitivas, apenas repetição.
O paradoxo é evidente: acusam Michelle de prejudicar um grupo ao falar, mas participam de linchamento que causa dano muito maior à sua imagem do que o próprio desabafo. Comportamentos podem mudar; sentimentos não são impróprios. Talvez seja hora de separar a pessoa de seus atos.
Discordar é legítimo. Desumanizar, não. Quando uma mulher é reduzida ao pior julgamento que fazem dela, todas as mulheres perdem liberdade de serem humanas e autênticas neste país controlado por Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes.


